Fruti-carnal
Tem uma ou outra coisa na vida que a gente não esquece. Uma delas é quando a gente voltava a pé de madrugada, e ali no alto da Avenida Dr. Arnaldo, ou também podia ser outro lugar qualquer, já tinha armada a banca de frutas pro dia que começava. Eu e ela, dois bichos-grilo na larica dos maconhados, parávamos pra comer maçã daquelas que estala no dente e pêra d'água que de tão suculenta escorria pelo queixo. Pra se empanturrar o pouco dinheiro das bijuterias não dava. Aliás, pra saciar a fome, enquanto o homem arrumava as caixas e frutas na banca, sempre se dava um jeito de pegar alguma coisa a mais sem que ele visse, oh! doce néctar da fruta roubada!, dava prazer duplo que a gente saboreava rindo as gargalhadas, não por mal, mas pela sacanagem da subsistência, em pró do utópico comunismo propagado por Che e do anarquismo de Max Stirner. Depois de sair de lá a gente se ajeitava em qualquer lugar que tivesse um gramado molhado de orvalho mais escondido de tudo pra comer e se comer misturado às frutas. E teve o dia, esse mesmo que eu não esqueço, que comemos duas mangas grandes, coração de boi, de casca vermelha de madura, o nome bem sugestivo também pelo formato de coração. E descascamos no dente e devoramos lambuzados das bochechas até as mãos com direito a escorrida até os cotovelos de amarelo doce, amarelo louco pós-impressionista de Van Gogh, tão vivo como melancólico. Cravando o dente sem pensar no depois, na sujeira da roupa, como se limparia tudo ou dos fiapos encravados nos dentes. Coisa que só criança faz, viver o momento. E quando chegava no caroço todo escorregadio e cheio de caldo que a gente se lambuzava ainda mais, e misturava tudo, e se limpava com a língua, feito bicho - já viu o cão chupando manga? - eu lambia nela tudo que ela não alcançasse, as bochechas, o que havia escorrido no pescoço, pingado no colo, e o que eu havia com o caroço lambuzado seu meio de pernas, ah, nesse meio do corpo dela que estava a grande iguaria de sabor fruti-carnal, doce-sal. Enquanto ela comigo fazia igual me chupando, misturando fiapo a pêlo, e sêmen a suco de manga. E depois, já de alma lavada, aproveitando o calor que fazia, fomos tomar banho no chafariz da praça.
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